O CONDOR PRISIONEIRO

GUSTAVO BARROSO, retirado do livro monumental “BRASIL, COLÔNIA DE BANQUEIROS”

Bons ou maus, os anos passaram e eu fui vivendo, dentro do liberalismo enganador, na ignorância do problema capitalista e de sua influência direta sobre nossos destinos. Um dia, em plena maturidade de corpo e de espírito, enfronhado já na grave questão, entrei uma tarde no jardim zoologico. Próxima a porta, havia uma jaula e dentro dela um condor prisioneiro. O seu âmbito era estreito para que a ave colossal não pudesse desfraldar as largas asas. Tinha-as por isso fechadas. Estava pousada no tabuado nu e liso. Um frêmito ligeiro de irritação agitava as vezes, rapidamente, a sua coleira de plumas claras, da qual sobressaía a cabeça purpurina. Na sua atitude concentrada, eu senti uma dor tal, um sofrimento tão profundo que a emoção ganhou a alma e ali fiquei meditativo por muito tempo.

O animal não se movia. Era como um vulto de metal ou pedra pintado a cores. E os seus olhos redondos, ourelados de amarelo, mantinha-se baixos. Atitude hostil, de fundo, silêncioso desespero se traduzia num desprezo absoluto por tudo o que rodeava.

Contemplei o condor prisioneiro e compreendi a sua tortura formidável. O olhar feito para o descortino das alturas, o panorama das ibiturunas majestosas com seus picos coroados de neves eternas, abraçando os vales em que os rios parecem fios de cristal e os rebanhos flocos perdidos de algodão das nuvens; o olhar feito para as cordilheiras ensopadas de sol ou envoltas nas gazes das névoas, para fitar os espaços azuis sem fim, ali confinado entre a poeira do chão batido de pés humanos, meia dúzia de arbustos raquíticos, uns muros de pedra, grades e multidões de visitantes ignaros! As asas, pálio de penas magníficas, criadas para o vôo rápido de glorioso, para o rauso homérico das crias ou o combate de vida e morte com os rivais, para remígio sereno acima dos picos andinos, para ascenção sublime do azul, ali amarradas pela angostura da gaiola, sem poderem ao menos espreguiçar, mortas apesar de toda a sua força latente, inúteis, bambas, enferrujadas! E as garras de lâminas cortantes, movidas por músculos de aço, preparadas pela natureza para levarem uma rez ou um homem aos píncaros das Andes, para despedaçarem a presa no rebordo dos precipícios que se afundam de quatro mil metros, para os gloriosos combates aereos nas altitudes silenciosas e iluminadas, ali se embotando ao contato vulgar dumas táboas de pinho!

E, compreendendo toda a angústia da grande ave cativa, sofri um momento a mesma dor que ela.

De repente, numa nesga de azul que se avistava por entre as franças duma árvore esgalhada, ao pé da jaula, dei com uma revoada de urubus, muito alto. Como que um instinto secreto advertiu o condor. Inclinando ligeiramente a cabeça, procurou com a sua pupila negra riscada de ouro o que eu observara. E viu o giro das urubus no espaço solheiro. E viu a imagem da Liberdade!

Acompanhou-os nas evoluções circulares e, quando desapareceram das nesga de céu que a folhagem permitia avistar, baixou de novo a cabeça empurpurada na sua atitude de alheiamento e de dor recôndita, diariamente reconcentrada. Antes, porém, um olhar de soslaio para mim com um leve estirar da asa, como a me dizer: “Homem, és coautor da monstruosa injustiça que me tolhe o gozo da liberdade e da vida! Eu, que sou a glória das asas nas alturas dos Andes e me perfilo heráldico nos brazões das Repúblicas do Continente, aqui manietado, inutillizado e só, enquanto que as negras aves covardes, vis e nojentas, que se alimentam da podridão, essas tem o domínio do espaço e revoluteiam no céu azul sob tépido banho da luz solar. E como são repelentes e mesquinhas, ninguém as prende em jaulas para mostrá-las, aos domingos, aos caixeiros da venda e aos meninos das escolas públicas!”

Eu saí naquela tarde, cabisbaixo e concentrado como o condor, do jardim em que ele jazia preso. O meu pensamento inquieto e dolorido batia asas continuamente como um inseto prisioneiro no vidro duma janela, até que apreendeu a imagem que tivera diante dos olhos. O condor poderoso, mas aprisionado, era o BRASIL, e os urubus livres e gozadores, os políticos que o venderam e os banqueiros que o compraram.

Brasil, Brasil, meu querido Brasil, não te concentres mais, como o condor prisioneiro na tua grande dor! A tua concentração e o teu desprezo eles chamam de preguiça, de inércia, de jecatatuismo. Estás sendo caluniado. Vamos, acorda do marasmo do teu desespero, distende suas asas possantes e soberbas, amola o bico anavalhante, desembainha as lâminas das garras formidáveis! Eia! Prepara-te o combate aos urubus traiçoeiros e nefandos!

Escuta! Não ouves, no fundo dos séculos, esse retumbo soturno de passos que marcam a imensidão das tuas terras virgens povoadas de onças, de papagaios, e de índios nus, todas empenachadas de palmeiras verdes? São as botas dos bandeirantes, cujo ritimo embalou o teu berço de taquara. Não ouves agora o outro tropel mais próximo, um tropel que teus ouvidos nunca ouviram? São os passos de novos bandeirantes, são os homens vestidos de verde, vestidos da cor da esperança, que vem quebrar as grades de ferro e as grades de ouro desta prisão!

Então, ó grande Condor Prisioneiro, com um grito triunfal que espantará todos os urubus em todas as carniças do planeta, tu desfrandará o pálio magnífico das grande asas que Deus te deu para os grandes vôos e subirás para as alturas azuis do espaço. E a vasta sombra das tuas asas passeará vitoriosa por sobre o mapa das nações!

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